Você sabia que nem toda ansiedade é um transtorno ou que nem toda tristeza é depressão? Pois é, te convido a conhecer um pouco mais sobre Transtorno Mental.

Neste artigo, você verá a relação entre transtorno mental, cultura e gênero.

O que é Transtorno Mental?

Bem, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V:


Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental. Desvios sociais de comportamento (p. ex., de natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção no indivíduo, conforme descrito. (p.64)

Ou seja, estar triste porque seu namoro ou casamento acabou não significa que você está em depressão, mas significa que você é um ser humano com sentimentos.

Você ser, por exemplo, uma baiana, como eu, que não curte praia nem pagode, não significa que você tem algum problema, pois isso não impede que você conviva na sociedade em que você está inserido.

Você ter uma visão política diferente da de outra pessoa não significa que você precisa de tratamento médico, desde que respeitados os limites do respeito.

Agora… se seu namoro acabou há seis meses e você, desde então, não sai, não trabalha mais (ou teve uma queda brutal de desempenho), não se cuida mais – me refiro a coisas básicas, como banho -, aí…

Você tem um indício de que “algo de errado não está muito certo”.

Veja: sempre que um comportamento afeta seu desempenho social, psicológico ou afeta sua saúde, é bom procurar ajuda. Nenhum extremo é saudável, lembre sempre disso.

Pois, então, como é que os médicos chegam a conclusão de que alguém tem um transtorno mental?

Eles levam em conta fatores como o meio ambiente em que o paciente está inserido, além de questões relacionadas ao gênero.

O meio ambiente do paciente

Você deve ter percebido que o ambiente no qual cada um vive tem um papel importante em relação aos sintomas dos transtornos mentais, não é? E você acertou!

Os transtornos mentais são definidos tendo em conta as normas e os valores culturais, sociais e familiares porque são eles que proporcionam a estrutura interpretativa que molda a experiência e a expressão dos sintomas, sinais e comportamentos que são critérios para o diagnóstico.

Por exemplo: numa família muito conservadora, pode ser inaceitável uma mulher decidir que não quer ser mãe. Esse valor de constituição de família pode gerar algum desconforto psicológico que desencadeia um transtorno mental, como uma ansiedade ou uma depressão.

Assim, o médico ou psicólogo deve levar em conta toda essa bagagem cultural do paciente e verificar se aquelas experiências trazidas, os sintomas e os comportamentos destoam do que é esperado naquele ambiente.

Principalmente, deve levar em conta se esses pontos acarretam dificuldades de adaptação nas culturas de origem do paciente e em contextos sociais ou familiares específicos.

Veja só: como eu mencionei, eu não gosto de praia. O povo aqui de Salvador, nem preciso dizer que, ama uma praia. Mas, isso não afeta minha performance social, não me leva a um comportamento de isolamento e de evitação das pessoas, não me faz ter atitudes que não são socialmente aceitas. Entende?

Por outro lado, se uma pessoa tem medo de estar num lugar com muitas pessoas (agorafobia) e, em função disso, ela simplesmente não sai mais de casa, aí tem-se uma situação que requer atenção, pois esse comportamento, além de não ser comum em nossa sociedade, prejudica a performance social, educacional ou profissional e familiar do indivíduo.

Consegue entender a diferença?

A importância das questões culturais para o diagnóstico

Compreender o contexto cultural do paciente é essencial para que o profissional da saúde formule seu diagnóstico e decida o melhor tratamento. Veja, o assunto é tão importante que a equipe do DSM-V dedica uma seção (pp. 733-783) somente a este assunto e traz algumas informações bem legais a respeito.

QuestoesCulturais 1024x682 - Tudo sobre Transtorno Mental

a) Cultura: é entendida aqui como um sistema de conhecimento, regras e práticas aprendidos e transmitidos entre as gerações. Como você sabe, e eu disse antes, esses valores são transmitidos e reconstruídos dentro da nossa família, nosso ambiente escolar, de trabalho… Enfim, os locais em que estamos inseridos.

É através desses dados que construímos nossa identidade e damos sentido à nossa vida.

b) Raça: sabia que raça é uma categoria de identidade culturalmente construída?

Essas categorias dividem a humanidade em grupos, com base em diversos traços físicos superficiais atribuídos a algumas características biológicas hipotéticas.

Importante dizer que essa construção não tem uma definição biológica consistente, mas ela é socialmente importante porque respalda ideologias raciais, o racismo, a discriminação e a exclusão social, que podem ter efeitos negativos sobre a saúde mental.

Já há evidências de que o racismo pode exacerbar muitos transtornos psiquiátricos e pode, inclusive, afetar a avaliação diagnóstica.

Quem não lembra de Michael Jackson? Ou do episódio ocorrido em abril deste ano, em que um pai de família foi alvejado com 80 tiros?

Isso é sério, gente.

c) Etnia: é uma identidade de grupo culturalmente construída usada para definir pessoas e comunidades, como por exemplo, os nipônicos, os afros, os muçulmanos.

A etnia pode estar enraizada numa história, numa localização, numa linguagem, numa religião, num grupo de características que são compartilhadas por um grupo e que os diferencia dos demais.

Pode ser atribuída pela própria pessoa ou por pessoas externas. Exemplo: você pode não se considerar muçulmano, mas pode ser definido assim pelas outras pessoas.

Esses três conceitos possuem relação com as desigualdades econômicas, com o racismo e com a discriminação, todos resultam em disparidades de saúde.

Da mesma forma que a cultura pode ser um ponto de apoio, de força para as pessoas, pode ser fonte de conflitos psicológicos, conflitos entre as pessoas ou entre gerações e, até mesmo, pode ser fonte de dificuldades de adaptação que requerem avaliação diagnóstica.

ConflitoseCultura - Tudo sobre Transtorno Mental

Tamanha a importância das questões culturais é que o profissional da saúde é orientado a fazer uma avaliação sistemática sobre (a) identidade cultural do paciente, (b) o conceito cultural de sofrimento que o paciente tem, (c)  os estressores psicossociais e características culturais de vulnerabilidade e resiliência, (d) os aspectos culturais do relacionamento entre o profissional da saúde e o paciente e (e) a avaliação cultural geral.

QuestoesCulturaiseDiagnostico - Tudo sobre Transtorno Mental

a) Identidade cultural do paciente: descreve os grupos de referência racial, étnica ou cultural que podem influenciar no relacionamento do paciente com as outras pessoas, bem como seu acesso a recursos e seus desafios, conflitos ou situações ao longo do desenvolvimento e atuais.

O clínico pode achar interessante também incluir na sua entrevista aspectos como (i) afiliação religiosa, (ii) origem socioeconômica, (iii) local de seu nascimento e crescimento, (iv) orientação sexual.

b) Conceito cultural de sofrimento que o paciente tem: diz respeito à forma como você vivencia, compreende e comunica seus sintomas e problemas para outras pessoas.

c) Estressores psicossociais e características culturais de vulnerabilidade e resiliência: esse nome enorme identifica quais são os principais estressores e apoios no ambiente social do paciente (que podem incluir acontecimentos locais ou acontecimentos distantes) e o papel da religião, da família e de outras redes sociais (amigos, vizinhos, colegas de trabalho, de escola) na oferta de apoio emocional, instrumental e informacional.

Os estressores e os apoios variam conforme as interpretações culturais dos acontecimentos, a estrutura familiar, as tarefas desenvolvimentais e o contexto social.

Aqui, você pode estar lembrando de alguém que diz que “depressão é falta de Deus”, ou que “na família nunca teve essas bobagens”, ou que “isso é frescura”.

Não os condene. Essas pessoas estão reproduzindo aquilo que elas aprenderam.

d) Aspectos culturais do seu relacionamento com o profissional da saúde: aqui se identificam diferenças de linguagem, sociais e culturais entre o paciente e o clínico. Essas distinções podem causar ruídos na comunicação e influenciar o diagnóstico e o tratamento, se for necessário. O resultado disso é uma má compreensão dos sintomas relatados pelo paciente (ou pelo acompanhante), do significado cultural que estes sintomas e comportamentos possuem e se torna difícil manter o vínculo necessário para o tratamento.

e) Avaliação cultural geral: neste ponto, vai um resumo das implicações dos componentes da formulação cultural identificados nas categorias anteriores ou problemas que tenham relevância clínica e que sejam importantes para a abordagem a ser escolhida.

É por isso que, quando a gente vai pra uma consulta, o médico faz várias perguntas sobre nossa vida. Não é que ele seja fofoqueiro, mas é porque essas perguntas são importantes, como você pôde ver e entender um pouco.

Essas várias perguntas que o médico faz durante a consulta tem por finalidade buscar informações sobre o indivíduo acerca de suas próprias visões e das visões das outras pessoas quem esse paciente convive.

Como você já viu, o conhecimento cultural de cada pessoa tem uma relação direta sobre a interpretação que é feita da doença e orienta a forma de buscar ajuda.

Conceitos culturais de Sofrimento

Além de compreender qual a bagagem cultural que o paciente traz a respeito de seus sintomas, de seus comportamentos, é importante que o profissional da saúde mental esteja alinhado aos conceitos culturais de sofrimento.

Esses conceitos compreendem as “formas como os grupos culturais vivenciam, entendem e comunicam sofrimento, problemas comportamentais ou emoções e pensamentos incômodos”. (p. 758)

ConceitosCulturaisdeSofrimento 1024x682 - Tudo sobre Transtorno Mental
Conceitos Culturais de Sofrimento

Existem três conceitos culturais principais com os quais esses profissionais trabalham. O primeiro conceito compreende as síndromes culturais, que são grupos de sintomas e de atribuições que tendem a ocorrer de forma concomitante entre indivíduos do mesmo grupo, contexto cultural ou da mesma comunidade e que são reconhecidos como padrões coerentes de experiência.

Você, com certeza, já ouviu ou disse que alguém teve um “ataque de nervos”. Saiba que esse é um exemplo de síndrome cultural. Ocorre mais em pessoas de origem latina (do sangue quente -rs) e se caracteriza por sintomas de perturbação emocional intensa, incluindo ansiedade aguda, gritos e berros, ataques de choro, calor no tórax que irradia-se para a cabeça (sabe quando seu sangue “ferve”?).

O segundo conceito cultural que auxilia os profissionais da saúde é o conceito de idioma cultural de sofrimento, que corresponde às formas de expressar o sofrimento que podem não envolver síndromes ou sintomas específicos, mas proporcionam formas coletivas e compartilhadas de experimentar e falar de preocupações pessoais ou sociais. Um exemplo disso é quando a gente diz que “‘tá’ nos nervos” com alguma coisa, querendo dizer que está preocupado ou nervoso, ou quando alguém diz que está “depressivo”, mas na verdade quer dizer que está um pouco triste ou sentindo essa emoção de forma um pouco mais intensa.

Por fim, as explicações culturais ou causas percebidas, que são rotulações, atribuições ou características  de um modelo explicativo que indicam um significado culturalmente reconhecido para sintomas, doença ou sofrimento.

Por exemplo, no sul da Ásia, se criou um termo – síndrome de dhat – para designar apresentações clínicas comuns de pacientes jovens do sexo masculino que atribuíam sintomas à perda de sêmen. Mas, na verdade, a literatura médica diz que isso não é exatamente uma síndrome, mas sim a explicação que aquela cultura do sul da Ásia dá para sintomas como ansiedade, fadiga, fraqueza, entre outros.

Esses conceitos são importantíssimos para a prática médica, pois eles surgem de construções profissionais e, também, populares e, como tudo na vida, esses conceitos culturais podem mudar com o tempo em resposta às influências (locais e/ou globais).

O Manual Diagnóstico aponta várias razões pelas quais os conceitos culturais de sofrimento são tão importantes:

  • Ajudam a evitar erros diagnósticos;
  • Persmitem obter informações clínicas úteis;
  • Melhoram o vínculo clínico e a adesão ao tratamento;
  • Aumentam a eficácia terapêutica;
  • Ajudam a orientar a pesquisa clínica;
  • Possobilitam esclarecer a epidemiologia cultural.

Transtorno Mental e Gênero

Além da questão cultural, outro importante fator é o relacionado ao modo de como as diferenças sexuais e de gênero se relacionam às causas e à expressão de condições médicas.

Vou me valer do DSM-5 para esclarecer que as “diferenças sexuais são variações atribuídas aos órgãos reprodutores de um indivíduo e ao complemento cromossômico XX ou XY.” (p. 59) Por outro lado, as diferenças de gênero “são variações que resultam tanto do sexo biológico como da auto representação do indivíduo, que inclui consequências psicológicas, comportamentais e sociais do gênero percebido.” (p. 59)

O gênero pode influenciar a doença de várias formas. Em primeiro lugar, ele pode determinar exclusivamente se um indivíduo corre risco de um transtorno específico, por exemplo, a TPM que é exclusividade das mulheres.

Também, o gênero pode moderar o risco geral para o desenvolvimento de um transtorno conforme demonstrado por diferenças de gênero marcadas nas taxas de prevalência e de incidência para determinados transtornos mentais.

Por fim, o gênero pode influenciar a probabilidade de que sintomas específicos de um transtorno sejam vivenciados por um indivíduo. O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade é um exemplo de transtorno com diferenças na apresentação que são experimentadas mais comumente por meninos ou meninas.

O gênero pode influenciar, ainda, os efeitos na vivência de um transtorno que são indiretamente relevantes ao diagnóstico psiquiátrico.

Alguns sintomas podem ser mais prontamente reconhecidos por homens ou por mulheres, o que contribui para a diferença na oferta de serviços.

Por exemplo, as mulheres têm mais chances de ter um transtorno depressivo, bipolar ou de ansiedade e de fornecer uma lista de sintomas mais abrangente do que homens.

Até variações hormonais são importantes para determinar as diferenças de gênero  no tocante ao risco de manifestação de uma doença.

Veja, as alterações de sono e de energia que nós, mulheres, enfrentamos no pós-parto são consideradas normais em função de todas as alterações pelas quais o organismo está passando.

Conclusão

livro - Tudo sobre Transtorno Mental
  • Os transtornos mentais são definidos em relação a normas e valores culturais, sociais e familiares.
  • A cultura proporciona estruturas de interpretação que moldam a experiência e a expressão de sintomas, sinais e comportamentos que são os critérios para o diagnóstico. Por esta razão, o profissional da saúde deve considerar se os critérios dignósticos diferem das normas socioculturais e conduzem a dificuldades de adaptação nas culturas de origem e em contextos específicos.
  • Os limites entre normalidade e patologia variam em diferentes culturas com relação a tipos específicos de comportamentos. Dessa forma, assim, o nível em que uma experiência se torna problemática ou patológica será diferente.
  • As diferenças de gênero são importantes para determinar a incidência de determinados transtornos mentais, bem como fornecem informações para fins preventivos desses males.
Para não esquecer: se você sentir que algo não vai bem com você ou alguém que você ama, não deixe de buscar ajuda.
issoetudopessoal - Tudo sobre Transtorno Mental

Mais Populares

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Seja o primeiro a comentar!